Rodrigo Agostinho é eleito deputado federal pelo PSB

Ex-prefeito de Bauru, Rodrigo Agostinho foi eleito deputado federal pelo PSB com 100 mil votos. Uma grande conquista para a cidade, que há mais de 20 anos não tinha um representante no Congresso Nacional. Antes das eleições, a jornalista Gisele Peralta conversou com Rodrigo, que fez uma campanha olho no olho, percorreu a região com um discurso que, pelo jeito, agradou.

Rodrigo Agostinho começou sua vida pública como vereador (2001-2008). Sempre teve disposição de circular pelos bairros, visitar os moradores, ouvir o que eles querem. Nunca se recusou a fornecer seu celular e atender todas as ligações, se preocupando com os problemas relatados do outro lado da linha. Nos oito anos em que esteve na prefeitura (2009-2017), tinha o hábito de visitar os funcionários municipais em seus locais de trabalho para ouvir críticas e sugestões. Esse estilo predominou durante sua campanha. 

Rodrigo Agostinho - deputado - federal - bauru
Carinho nas ruas, por onde passa…

Você saiu da prefeitura já pensando em ser deputado federal?
“Eu tinha um histórico de ter começado na Câmara Municipal. Gosto dessa atividade legislativa. Ajudei a construir leis federais, inclusive na área de meio ambiente. Saí candidato a deputado federal em 2006 e tive 42 mil votos. Não fui eleito, mas me tornei suplente. E isso ficou na minha cabeça. Essa eleição me ajudou a circular um pouco melhor pela cidade, a ser um pouco mais conhecido, o que me ajudou muito na eleição para prefeito. Eu gostava muito o que eu fazia como prefeito, mas eu sentia que Bauru e região são enfraquecidas politicamente. Eu me esforçava muito para captar recursos. Ia muito para São Paulo e Brasília e a pergunta que mais ouvia era: ‘quem é o seu deputado?’. O ministro das Cidades na época me dizia: ‘Rodrigo, prefiro dar recursos para cidades que tenham uma força política maior, que tenham deputados que depois irão apoiar o governo ou não’. Essa região é enfraquecida politicamente. Existem alguns deputados que atuam na região, mas que não têm uma presença tão forte em Bauru. Eu conseguia todo ano uma quantidade grande de emendas parlamentares, mas emendas pequenas e de deputados de fora. Do ponto de vista estadual, a cidade tem um deputado com grande proximidade com o governo do Estado, que é o Pedro Tobias, e que ajudava a trazer projetos e obras para a cidade. A gente fazia os projeto, corria atrás, e ele, com sua força política, fazia com que isso se realizasse. Mas em nível federal não tinha isso. Então eu precisava me desdobrar e, mesmo assim, consegui trazer R$ 2 bilhões do governo federal para Bauru, em obras. A maior parte na área de habitação: foram 11 mil unidades do Minha Casa, Minha Vida. Mas foram também 3 mil quadras de asfalto, 53 escolas, quatro UPAs… O Tuga Angerami foi o nosso último deputado federal (1995-1999). Tem regiões do Estado que têm 4 ou 5 deputados federais. Ao mesmo tempo que Bauru é um grande centro regional, existem outras cidades médias daqui da região que também lançam candidatos. Há uma certa competição. Botucatu, Ourinhos, Marília e Avaré são cidades que também lançam candidatos. São José do Rio Preto está sozinho no noroeste de São Paulo. Ribeirão Preto está sozinho no nordeste do Estado. Bauru está dividindo forças com cidades menores, que são tão importantes quanto, mas menores. Marília, Lins, Botucatu, Jaú, Ourinhos, enfim, são cidades que também exercem atração microrregional, que têm seus potenciais e lançam seus candidatos. Ocorre uma divisão e acaba enfraquecendo as candidaturas de Bauru. Por outro lado, Bauru não tem lançado candidatos que a população não tem reconhecido neles esse papel de liderança política. Temos 260 mil eleitores, mas a divisão tem feito Bauru ficar enfraquecida politicamente”.

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Qual é o papel do deputado federal?
“No Brasil, a divisão de responsabilidades é confusa. A Constituição de 88 tentou esclarecer, mas deixou mais dúvidas ainda. E a população tem tido uma dificuldade porque os candidatos têm prometido coisas que não são de responsabilidade deles. É muito comum numa esfera local o vereador prometer coisas que é papel do prefeito. Por outro lado, o prefeito também faz coisas que são de responsabilidade do vereador. Deputado estadual não constrói escolas; quem faz isso é o governador. O deputado federal é um legislador, quem produz as leis nacionais que regem o comportamento da sociedade; discutem legislação tributária, previdenciária, ambiental. Enfim, tem todo um ordenamento jurídico que é feito pelo Congresso Nacional. As pessoas têm dificuldade de entender qual é o papel do deputado federal e do senador. A política não tem sido didática. Um outro papel do deputado federal é o de fiscalizar, acompanhar a execução do orçamento e de obras. acompanhar todo o processo de transparência do governo federal. Mas os deputados federais acabam deixando isso em segundo plano, deixando esse trabalho para o Ministério Público e para o Tribunal de Contas da União. Um outro papel é o de fortalecimento político da região. Os deputados são o elo de ligação entre os municípios, os Estados e o governo federal. A partir do momento que isso acontece, os Estados e os municípios que têm mais deputados acabam se tornando mais fortes politicamente. Acabam atraindo mais coisas. E isso inclui as emendas parlamentares, que são ‘costuras’ feitas dentro do orçamento da União, que estabelece onde o dinheiro será gasto. E os deputados também podem indicar onde esses recursos podem ser gastos, inclusive apontando a sua região. Hoje, cada deputado consegue trazer para a sua região, em emendas parlamentares, no mínimo R$ 15 milhões. Eu consegui buscar emendas de até R$ 40 milhões. E ao mesmo tempo o deputado consegue trazer muito mais benefícios diretamente com os ministérios. É muito importante ter um deputado federal representando a nossa região!”.

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Campanha em Bauru e região: conquista de quase 100 mil votos.

Rodrigo Agostinho: “Bauru é minha paixão”

Quais serão suas bandeiras como deputado federal?
“Ao longo de oito anos, acabei indo muito para Brasília, a cada 15/20 dias. Eu aprendi como as coisas funcionam lá. Por conta do meu histórico, eu tenho esse sonho de ser deputado federal e ajudar no fortalecimento dessa região. É uma região sensacional, mas que está enfraquecida. Bauru é a minha paixão. Eu nasci em Cafelândia, mas minha família toda é daqui de Bauru. Cresci aqui. Quero ajudar a região. Mas tem outras coisas que quero defender como deputado também. Tenho apresentado alguns pontos que acho que são muito importantes. Um deles é a discussão do pacto federativo. Quase tudo que é arrecadado hoje no país fica na mão do governo federal. Há uma dificuldade muito grande para fazer esses recursos voltarem para os Estados e municípios. Eu acho que isso precisa ser discutido, pois só 17% do que é arrecadado voltam para os municípios. Isso precisa ser enfrentado. A União e os Estados têm mandado muitas atribuições para os municípios; as prefeituras são responsáveis por tudo, mas ficam apenas com 17% da arrecadação. Acho que tem um espaço bom no país para se discutir isso. Outra coisa que, pra mim, tem sido importante a minha vida toda é a questão ambiental. Apenas três ou quatro deputados, dentre os 513, se importam com a causa ambiental. Outros setores têm avançado, mas grandes retrocessos estão sendo costurados na área ambiental. Existem projetos para acabar com o licenciamento ambiental e uma série de garantias e direitos e eu quero participar desse tipo de discussão. Atuei por muito tempo no Conselho Nacional do Meio Ambiente e ajudei a construir parte dessa legislação e que estou vendo agora ser triturada por setores da economia que não entenderam a importância do desenvolvimento sustentável. Obviamente que consideramos o papel dos setores mais desenvolvimentistas, mas eles têm que entender que há jeito para as coisas. Não dá para continuar desmatando mais de 20 mil km quadrados de florestas pelo Brasil”.

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Ambientalista, Rodrigo pretende lutar pela defesa do meio ambiente no congresso.

“O PMDB se envolveu muito com corrupção”

Por que você escolheu o PSB?
“Eu já estava há mais de 20 anos no PMDB, construí uma história lá. Comecei minha trajetória política no PV nos anos noventa, mas o partido em Bauru sofreu uma crise e meio que deixou de existir. Acabei optando pelo PMDB, que tem uma história bacana, centralizou todos os esforços do Movimento das Diretas, de redemocratização do país, tinha nomes fortes para fazer o enfrentamento do momento de ditadura. Por outro lado, foi um partido que cresceu demais e acabou errando. E errando feio! O PMDB se envolveu muito com corrupção e uma série de denúncias. Entendi que era o momento de sair e buscar um novo caminho. Tenho uma identificação com o PSB, um partido de centro-esquerda, que está se fortalecendo no Estado de São Paulo, tem um pré-candidato a governo do Estado. Tenho uma proximidade com muitas pessoas do PSB. Todos esses fatores foram me levando a fazer essa opção. Estou contente onde estou agora. Pretendo fazer um esforço muito grande para ser eleito e poder trabalhar”.

“A internet aproximou o eleitor dos candidatos. Qualquer eleitor consegue falar diretamente com seu senador, governador ou prefeito. Mas provocou um distanciamento do calor humano. Pegar, apertar, abraçar. Eu ainda faço política desse jeito. Gosto de conversar com as pessoas, abraçar, saber o que está acontecendo. Nunca me importei em dar o meu telefone para todo mundo, falar com as pessoas, saber tudo o que está acontecendo. E as pessoas me ligam. Gosto disso. Eu sou assim. De certa forma, isso acaba me ajudando. É desgastante? Muito! Andar o tempo todo… Mas é o que eu gosto. Acaba sendo um diferencial. Gosto de estar nos bairros, mesmo que seja para ouvir críticas”.

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Rodrigo tem noção da importância do seu papel para Bauru e região.

“Aprendi a lidar com críticas”

Como você lida com críticas?
“Encaro numa boa! A pessoa que entrar na vida pública precisa entender que o Brasil ainda está em construção, as coisas não estão prontas e acabadas. A gente tem bairros inteiros que ainda precisam de infra-estrutura. Ao mesmo tempo que temos polos de excelência na área de saúde, com grandes laboratórios, também temos uma saúde que não consegue atender todo mundo. O sistema público de saúde é fragilizado. A pessoa pública tem que se sujeitar às críticas. Claro que quando uma pessoa faz uma crítica que você sabe que não procede, você fica chateado. Eu ficava com a cabeça baixa, mas fazia o enfrentamento. Era muito comum alguém postar no meu Facebook o problema de um buraco numa rua da cidade. As pessoas diziam pra que eu retirasse da minha página. Eu não tirava. Porque depois eu queria postar a foto do buraco tapado. Não faz sentido apagar a postagem se o buraco continua no meio da rua. Acho que a população tem todo direito de cobrar e reivindicar. Aliás, o brasileiro cobra pouco até perto de outros lugares. Aprendi a lidar muito bem com isso. Recebo as críticas com muita naturalidade”.

Que análise você faz da sua trajetória?
“Sempre fiz as coisas com muita intensidade. Gosto de olhar para trás e enxergar que muita coisa que eu sonhava fazer deram certo. Tenho muito orgulho do trabalho recente que fiz na prefeitura e do que fiz como vereador. Fui um vereador muito atuante. Uma boa parte da legislação de hoje eu ajudei a construir. E como ambientalista eu trabalhei bastante e fiz muita coisa legal também. Tenho projetos que plantaram mais de 30 milhões de árvores no Brasil. Participei da construção de boa parte da legislação mais recente ambiental do Brasil. Gosto de olhar para trás e ver que consegui fazer um monte de coisa num período relativamente curto de 20 e poucos anos. Estou com 40 anos, sei que vou ter uma fase muito intensa daqui pra frente”.

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Com o governador Márcio França, também do PSB: parceria e respeito mútuo.

E olhando pra frente, o que você planeja?
“O Brasil é um país muito desafiador. Tem muita coisa ainda para fazer. Eu quero participar disso”.

Você tem medo de chegar em Brasília?
“Medo não, mas dá aquele friozinho na barriga porque a gente vê que o jogo é bruto. Mas passei a conhecer e admirar alguns deputados que estão fazendo um trabalho bacana sem envolvimento nenhum com esse tipo de situação. Existem pessoas muito sérias lá também. Não dá para generalizar. As denúncias da Lava Jato envolvem muito gente, mas tem quem conseguiu sair ileso. E é nessas pessoas que a gente tem que se espelhar. Existem hoje no Brasil 20 movimentos grandes de renovação na política. Eu participo de um deles, que é a Raps, onde estou ajudando dando curso de campanha eleitoral para outros jovens que querem participar desse processo de mudança”.

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Rodrigo Agostinho durante entrevista com a jornalista Gisele Peralta.